ESQUEMA E ICONOGRAFIA DAS OBRAS DE 1885
RESTAURANTE LEÃO DE OURO L1885
RUA 1.º DE DEZEMBRO, 95-99
LISBOA
Indica-se as variantes dos títulos das obras tal como publicadas em "A galeria de pintura do restaurante Leão de Ouro: percursos de uma colecção" de Clara Moura Soares, publicado na revista Artis em 2007 – estudo fundamental e uma das bases principais para o PL7885.
A informação das dimensões segue a mesma lógica, salvo nos casos em que há certeza absoluta dos dados definitivos.
1885
LPIX85_SALA_01
Simulação das obras colocadas no Restaurante Leão de Ouro em 1885. As imagens foram sobrepostas às representações do desenho de Ribeiro Cristino (original aqui). A distribuição segue também as descrições mais detalhadas (RAMALHO, 1885a: 98-99; 1885b: 107-108; CRISTINO, 1923: 36-37; ver ainda ANON., 1885g: 2).
Em data indeterminada, mas em ou antes de 1928, foram invertidas as posições de Grupo de Leão de Columbano (obra 1) e Paúl da outra banda de Malhoa (obra 12), de acordo com ALDEMIRA, 1953: 105. Assim o parece confirmar as fotografias L1885_05 e L1885_06, de 1928.
Note-se que obra 05, provavelmente a de Maria Augusta Bordalo Pinheiro, foi apagada por nós do lugar original no desenho (i.e., aquilo que consideramos ser a representação dela por Cristino) e recolocada com a nossa versão especulativa (05_A) no lugar indicado pelas fontes.
Acima da imagem 05_A colocámos a imagem 04, que não consta do desenho de Cristino.
Tais variações e ausências, bem como a falta no desenho da obra 13, levam-nos a pensar que este registo de Cristino não corresponde à colocação definitiva das pinturas.
As imagens 09_A e 11_A são especulações cromáticas.
A posição da obra 12, que não aparece no desenho de Cristino, segue a informação das fontes escritas.
Ignora-se o lugar exacto da obra 13, pelo que não aparece nesta simulação (embora pensemos ter sido colocada na parede do fundo).
É interessante notar quais são as duas únicas pinturas "apreciadas" pelos figurantes colocados no desenho por Ribeiro Cristino: a grande tela de Columbano (obra 01), à esquerda, e a do próprio Cristino, à direita (obra 11).
[O blog Eventualmente Lisboa e o Tejo, de Rui Granadeiro, foi o primeiro a propor uma simulação deste tipo.]
01 COLUMBANO BORDALO PINHEIRO
02 JOSÉ MALHOA
03 SILVA PORTO
04 COLUMBANO BORDALO PINHEIRO
05 MARIA AUGUSTA BORDALO PINHEIRO [05_A especulação cromática e esquemática sobre desenho de Ribeiro Cristino]
06 JOÃO VAZ
07 LEANDRO BRAGA [07_A simulação da obra completa]
08 RAFAEL BORDALO PINHEIRO
09 RODRIGUES VIEIRA [09_A especulação cromática sobre desenho de Ribeiro Cristino]
10 MOURA GIRÃO
11 RIBEIRO CRISTINO [11_A especulação cromática sobre desenho de Ribeiro Cristino]
12 JOSÉ MALHOA
13 JOSÉ MALHOA
1885
01
LPIX85_01
COLUMBANO BORDALO PINHEIRO
1857-1929
Grupo do Leão
óleo sobre tela
201 x 376 cm
Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado
imagem: GOOGLE ARTS & CULTURE/MNAC-MC
VER MODELO 3D DO PROJECTO O GRUPO DO LEÃO - UMA EXPERIÊNCIA VIRTUAL IMERSIVA DO IHA/NOVA FCSH
A imagem infra mostra a identidade dos retratados, num esquema de Ribeiro Cristino (CRISTINO, 1923: 37).
1885
02
LPIX85_02
JOSÉ MALHOA
1855-1933
As andorinhas
Macieiras em flor
Campanário
Igreja com amendoeiras e andorinhas (Toledo)
óleo sobre tela
200 x 48 cm
propriedade e localização desconhecidas
imagem: LEIRIA & NASCIMENTO, 1996: 23, reproduzido em SALDANHA, 2006: 643
1885
03
LPIX85_03
SILVA PORTO
1850-1893
Paisagem
Paisagem de Carriche
Vale de Carriche
O Quinteiro (Carriche)
Cabras pastando (Paisagem de Carriche)
óleo sobre tela
200 x 126 cm
colecção privada desconhecida, localização desconhecida; leiloado em 2015 pela Veritas Art Auctioners; propriedade de Jorge de Brito em 1993 (SOARES, 2007: 285, nota 68)
imagem: VERITAS ART AUCTIONERS
A Sociedade Nacional de Belas-Artes guarda um desenho preparatório. O Museu Nacional Grão Vasco possui um estudo em óleo para esta pintura. Ver as duas imagens aqui.
1885
04
LPIX85_04
LPIX85_04_X
COLUMBANO BORDALO PINHEIRO
1857-1929
Retrato de António Monteiro
óleo sobre tela
100 x 70 cm
propriedade e localização desconhecidas
imagem: Estúdio Mário Novais / MACEDO, 1952: s. n.º p. [estampa XXIV]
Esta é a única reprodução conhecida. O escudo no canto superior direito, pouco visível, "mostra a marca da casa – o Leão de Ouro" (MONTEIRO, 1885b: 3). Ignora-se a paleta. À esquerda: fotografia (autor desconhecido) de António Monteiro publicada em O Ocidente em 1905.
Quanto à localização da pintura no restaurante. Ribeiro Cristino (que não a incluiu no seu desenho de 1885) explicou: "por sobre a porta, que o reposteiro [de Maria Augusta Bordalo Pinheiro] oculta, Columbano num pequeno quadro, tendo uma mancha de casaria da cidade por fundo, destacou o retrato do Sr. Monteiro" (CRISTINO, 1923: 36). No Diário Popular escreveu-se: "encimando a porta que comunica com o bilhar, um retrato do do dono da casa, em que Columbano nos dá mais uma prova do seu talento (ANON., 1885b: 2.; cf. tb. ANON., 1885n: 2).
1885
05
LPIX85_05
MARIA AUGUSTA BORDALO PINHEIRO
1840-1915
Leão rompente
bordado
dimensões desconhecidas
propriedade e localização desconhecidas
imagem: O OCIDENTE, desenho de Ribeiro Cristino
Ribeiro Cristino escreveu: "Num reposteiro grenat aparece depois, bordado a retrós alaranjado, um Leão rompente, que a exímia artista D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro ali salientou".
A descrição é de 1911, dos artigos de imprensa coligidos pelo autor uma década depois (CRISTINO, 1923: 36). Considere-se também uma descrição de 1885: "[a artista] bordou com raro primor um leão que é de ouro"; ANON., 1885c: 1.
Portanto, a descrição de Cristino não corresponde ao seu desenho de 1885 na revista O Ocidente (CRISTINO, 1885: 1). Neste observa-se ao fundo da sala uma figura que parece ser a peça, mas isto é especulação minha. Se for o caso, então, em data desconhecida, a peça foi mudada de posição, vindo a cobrir a porta que dava acesso à sala de bilhares, espaço convertido na segunda sala de restaurante em 1905 (e sobre a porta, como explicado acima, estava o Retrato de António Monteiro de Columbano, imagem 04.)
(No esquema visual da sala, supra, a imagem 05_A é a minha especulação crómatica e esquemática a partir das indicações artísticas e escritas de Cristino.)
1885
06
LPIX85_06
JOÃO VAZ
1859-1931
Marinha
Vista do Tejo
Poente do Tejo
Marinha da Junqueira
Barcos no Sado
Barcos
óleo sobre tela
198 x 123,5 cm
colecção particular, localização desconhecida
imagem: AA.VV., 2005a: 80
1885
07
LPIX85_07_A_01
LPIX85_07_A_02
LEANDRO BRAGA
1839-1897
Leão de Ouro
madeira esculpida e pintada
dimensões ainda não verificadas
Grupo Chimarrão / Restaurante Leão de Ouro
imagem de cima: ABC A RIR [imagem recortada]
imagem de baixo: BRAGA, 1997: s. n.º p. [imagem recortada]
A imagem de cima é a única fotografia conhecida do objecto na sua integridade. O que se apresenta é uma versão editada da publicada no ABC a Rir em 1921, numa página de gozação à Questão dos Novos. É uma espécie de foto-cartoon, com o leão dizendo: "Deixar vir os pequeninos... (novos) artistas ao Grupo do Leão.... comer sopa de camarão... [sic] 240".
Trata-se da única obra de 1885 exposta hoje (2023) num estabelecimento comercial associado ao Grupo do Leão, o actual Restaurante Leão de Ouro, antiga Cervejaria Leão.
Hoje falta-lhe o escudo que o animal agarrava, como se vê na segunda imagem, já desaparecido nos anos 1960, época em que a obra foi colocada numa "peanha, ao alto da parede" (F.R., 1963: 20), retirada nos anos 1980 e reposta na mesma posição provavelmente em 2005 (ver sucessão do espaço em CRONOLOGIA e outras imagens em L1878).
O escudo continha o monograma do proprietário do restaurante, António Monteiro (MONTEIRO, 1885: 3), provavelmente semelhante ao de um anúncio publicado num Diário de Notícias de 1905. O desenho assemelha-se à representação de 1885 de Ribeiro Cristino na revista O Ocidente. As outras imagens mostram a obra tal como actualmente exposta (2023).
ABRIR
[In extenso: veja-se o curioso artigo biográfico de Ignasi Ribera y Rovira (1880-1942) sobre Leandro Braga publicado em 1902 na revista Catalunya Artística.]
1885
08
LPIX85_08
RAFAEL BORDALO PINHEIRO
1846-1905
Alegoria ao Grupo do Leão
Paródia ao Grupo
O sonho do leão
óleo sobre tela
200 x 160,5 cm
Colecção Afonso Pinto de Magalhães, em depósito no Museu José Malhoa
imagem: AA.VV., 2005c: 119
A obra imita um painel de azulejos e estava colocada quase ao fundo, do lado direito. Sobre a forma da tela: "por causa de um bico de gás o quadro é na parte inferior cortado em semi-círculo reentrante" (MONTEIRO, 1885b: 3). A imitação impressionava: "o esmalte é por tal forma simulado que se lhe põe o dedo, no empenho de verificar se é azulejo ou não" (MACHADO, 1885: 1).
ABRIR PARA IDENTIFICAÇÃO DAS FIGURAS, E OUTRAS IMAGENS
1885
09
LPIX85_09
RODRIGUES VIEIRA
1856-1898
Rosas e begónias
Flores
óleo sobre tela
dimensões desconhecidas
propriedade e localização desconhecidas
imagem: Estúdio Mário Novais / Espólio Ramos da Costa
A descrição de Ribeiro Cristino: "numa estreita tela, vê-se sobressaindo sobre um pano de seda amarela, belamente imitado, algumas Rosas e begónias" (CRISTINO, 1923: 36).
1885
10
LPIX85_10
MOURA GIRÃO
1840-1916
Uma capoeira
Na capoeira
No curral
Interior de curral
Coelhos e galinhas
Os galos
óleo sobre tela
199 x 124 cm
Colecção Jorge de Brito em 1983 (CORRÊA, 1983: 56); propriedade e localização actuais desconhecidas
imagem: CORRÊA, 1983: 87
Em 1907 a Ilustração Portuguesa publicou uma entrevista com Moura Girão onde se conta o episódio em que lhe foram roubados "os modelos que lhe serviram para pintar os quadros [sic, erro do autor do texto] que estão no Leão d'Ouro".
[In extenso: durante alguns anos Moura Girão colocou na imprensa anúncios de aulas particulares, dando como morada de referência o Restaurante Leão de Ouro. Ver aqui.]
1885
11
LPIX85_11
RIBEIRO CRISTINO
1858-1948
Ponte do Fidalgo
Paisagem
Paisagem do Alcoa [na verdade, do rio Baça]
Ribeiro com lavadeiras
Lavadeiras
óleo sobre tela
200 x 126 cm
propriedade e localização desconhecidas
imagem: O OCIDENTE, desenho de Ribeiro Cristino
A única representação que se conhece é parcial e foi desenhada pelo próprio artista. Dele é também a descrição: "o assunto é a Ponte do Fidalgo, um recanto alcobacense; na hora do cair da tarde, destaca-se uma ponte de um só arco, com choupos à beira de um ribeiro, onde se espelham as verduras marginais, enquanto uma camponesa e a filha acabam a tarefa de lavarem a roupa" (CRISTINO, 1923: 36). De outra descrição coeva: "Um ribeiro, atravessado por uma ponte, paralela ao quadro. Da margem direita sobem grandes choupos recortando a atmosfera; na esquerda e no primeiro plano umas lavadeiras na sua lide. Ao fundo, massa de arvoredo e umas montanhas azuladas" (MONTEIRO, 1885b: 3). Na verdade, e ao contrário de um dos títulos dados à obra – Paisagem do Alcoa –, o rio ("ribeiro") representado é o Baça, afluente do Alcoa, que atravessa Alcobaça. A ponte ainda existe, sobre a qual se construiu a Rua David da Fonseca, que é o "Fidalgo" de um dos títulos da pintura (OLIVEIRA, 2015: 13). Ver a localização da ponte aqui. Imagem abaixo (Apple Maps): vista actual da ponte e do rio Baça – não sendo certo se a pintura de Cristino tomou este ângulo ou o oposto. (Ao fundo vê-se a igreja do Mosteiro de Alcobaça.)
1885
12
LPIX85_12
JOSÉ MALHOA
1885-1933
Pântano
Paúl da outra banda
Charco de Corroios
Trecho do Alfeite
óleo sobre tela
196 x 371 cm
Colecção Alfredo da Silva, em exposição no Museu José Malhoa
imagem: AA.VV., 2003: 37
1883
13
LPIX85_13
JOSÉ MALHOA
1885-1933
Retrato de Manuel Fidalgo [i.e., Manuel de Vasconcelos]
óleo sobre tela
17 x 28 cm
Museu José Malhoa
imagem: MUSEU JOSÉ MALHOA [MatrizNet]
Este retrato do criado Manuel "Fidalgo" de Vasconcelos é, de certo modo, pelo historial, a mais curiosa de todas as pinturas expostas no Restaurante Leão de Ouro. Não o incluí na simulação da sala.
Por um lado, é a única anterior a 1885: foi executada em 1883. Será que chegou a estar no espaço anterior da tertúlia do grupo, a Cervejaria Leão? Por outro, não sabemos quando foi colocada no restaurante, nem a sua localização nas paredes. Note-se que Ribeiro Cristino não a referiu na sua obra (CRISTINO, 1923), nem a incluiu no desenho de 1885 na revista O Ocidente.
O que se sabe provém apenas de um depoimento publicado em 1931, dado pelo proprietário do restaurante, José da Costa, ao olisipógrafo João Paulo Freire, conversando ambos na sala inicial, a aberta em 1885. Disse Costa a Freire (FREIRE, 1931: 82, 83):
(...) o Manuel de Vasconcelos, que tu vês ali na tela do Malhoa (...)